sexta-feira, 2 de maio de 2014

Teocracia e totalitarismo

 George Orwell introduziu, em um chamado livro 1984, o conceito de ''crimideia'': a noção de que um indivíduo pode ser condenado e penalizado não (só) pelo que ele faz, mas até mesmo pelo que ele pensa.  Essa noção extremamente autoritária (e  essencialmente totalitária) foi percebida em regimes como o socialismo stalinista, quando milhares foram presos acusados de ter ''delírios reformistas''. Isso certamente revolta qualquer cidadão com um mínimo de senso comum: nós não somos culpados pelo que pensamos, por nossas opiniões, mas sim por nossos atos. No entanto, os velhos sistemas metafísicos (as ''boas'' e velhas religiões) estão repletas desse totalitarismo. A marcante frase de Jesus, ''Somente aquele que crê em mim e for batizado'', é uma boa prova disso: pessoas condenadas ao inferno pela eternidade por não crerem, por não terem determinada ideia em suas mentes, ainda que tenham praticado boas ações por toda a vida.

 O texto abaixo, de autoria de Christopher Hitchens, corresponde à primeira metade do capítulo 17 do livro ''god is not Great: how religion poisons everything'', ''Uma objeção antecipada: o 'argumento' desesperado contra o secularismo'', e está relacionado a esse tema. Boa leitura.


''Uma fé que despreza a mente e o indivíduo livre, que prega a submissão e a resignação e que considera a vida algo pobre e transitório está mal equipada para a autocrítica.'' - C. Hitchens

 Se eu não posso provar definitivamente que o sentido da religião desapareceu no passado, que seus livros fundamentais são fábulas transparentes, que é uma imposição criada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência e da pesquisa e que sobreviveu principalmente de mentiras e medos e foi cúmplice da ignorância e da culpa, bem como da escravidão, do genocídio, do racismo e da tirania, eu quase certamente posso afirmar que a religião hoje está plenamente consciente dessas críticas. Também está plenamente consciente das provas cada vez mais numerosas, referentes às origens do universo e à origem das espécies, que a relegam à marginalidade, quando não à irrelevância. Eu tentei lidar com as objeções na fé à medida que foram surgindo ao longo da discussão (no livro), mas há um último ponto que não pode ser evitado.

 Quando já foi dito o pior sobre a Inquisição, os julgamentos das bruxas, as cruzadas, as conquistas imperiais islâmicas e os horrores do Velho Testamento, não é verdade que os regimes seculares e ateus cometeram crimes e massacres que são, na escala das coisas, pelo menos tão ruins, quando não piores? E o corolário não é de que homens livres da reverência religiosa irão agir da forma mais desabrida e abandonada? Em seu Os irmãos Karamazóv, Dostoiévski foi extremamente crítico em relação à religião (e vivia sob o despotismo que era santificado pela Igreja) e também representou seu personagem Smerdiakov como  uma figura vã, crédula e idiota, mas a máxima de Smerdiakóv - de que ''Se deus não existe, tudo está permitido'' - compreensivelmente encontra eco naqueles que veem a Revolução Russa do prisma do século XX.

 É possível ir além e dizer que o totalitarismo secular de fato nos deu um resumo do mal humano. Os exemplos mais utilizados - os regimes de Hitler e Stálin - nos mostram com terrível clareza o que acontece quando os homens usurpam o papel dos deuses. Quando eu consulto meus amigos seculares e ateus, descubro que essa se tornou a objeção mais comum e frequente que escutam de plateias religiosas. O ponto merece uma réplica detalhada.

 Para começar devagar, é interessante descobrir que as pessoas de fé hoje buscam dizer defensivamente que não são piores que fascistas, nazistas ou stalinistas. Seria de esperar que a religião tivesse preservado um pouco mais de dignidade. Não diria que as fileiras do secularismos e ateísmo estão abarrotadas de  comunistas ou fascistas, mas pelo bem do debate pode-se considerar certo que, assim como os secularistas e ateus resistiram às tiranias clericais e teocráticas, os crentes religiosos resistiram às pagãs e materialistas. Mas isso seria apenas dividir a diferença.

 A palavra 'totalitário' provavelmente foi usada pela primeira vez pelo dissidente marxista Victor Serge, que ficou chocado com os frutos do stalinismo na União Soviética. Ela foi popularizada pela intelectual judia secular Hannah Arendt, que escapou do inferno do Terceiro Reich e escreveu Origens do Totalitarismo. É um termo útil, porque ele distingue as formas ''comuns'' de despotismo - aqueles que se limitam a exigir obediência de seus súditos - dos sistemas absolutistas que exigem que os cidadãos se transformem inteiramente em súditos e entreguem suas vidas e suas personalidades ao Estado, ou ao líder supremo.

 Se aceitarmos essa última definição, então o primeiro ponto a ser abordado também é fácil. Durante a maior parte da história humana, a ideia o Estado total ou absoluto esteve intimamente ligada à religião. Um barão ou rei podia obrigar você a pagar impostos ou a servir em seu exército, e normalmente podia garantir ter sacerdotes à mão para lembrar você que essa era sua obrigação, mas os despotismos verdadeiramente assustadores foram aqueles que também queriam o conteúdo do seu coração e da sua cabeça. Quer estudemos as monarquias orientais da China, da Índia ou da Pérsia, os impérios asteca ou inca ou as cortes medievais da Espanha, da Rússia e da França, quase invariavelmente descobrimos que esses ditadores também eram deuses, ou líderes das igrejas. Devia-se a eles mais do que a mera obediência: qualquer crítica a eles era por definição profana, e milhões de pessoas viveram e morreram de medo de um governante que podia escolher você para um sacrifício ou condená-lo à punição eterna por um capricho. A menor infração - de um dia santo, um objeto sagrado ou uma regra acerca de sexo, comida ou casta - podia produzir calamidades. O princípio totalitário, que frequentemente é representado como ''sistemático'', também está intimamente relacionado ao capricho. As regras podem mudar ou ser flexibilizadas a qualquer momento, e os governantes têm a vantagem de saber que seus súditos nunca estarão seguros sobre estar obedecendo ou não à lei mais recente. Hoje valorizamos algumas poucas exceções da antiguidade - como a Atenas de Péricles, com todas as suas deformações - exatamente porque havia alguns poucos momentos em que a humanidade não viveu em terror permanente de um faraó, Nabucondonosor ou Dário, cuja menor palavra era lei sagrada.

 Isso continuou a ser verdade mesmo quando o direito divino dos déspotas começou a dar lugar a versões da modernidade. A ideia de um Estado utópico na Terra, moldado a partir de algum ideal celestial, é muito difícil de eliminar, e levou pessoas a cometer crimes terríveis em nome do ideal. Uma das primeiras tentativas de criar uma sociedade edênica ideal como essa, baseada no conceito de igualdade humana, foi o Estado socialista totalitário estabelecido por jesuítas no Paraguai. Ele conseguiu combinar o máximo de igualitarismo com o máximo de falta de liberdade, e só pôde ser sustentado pelo máximo de medo. Isso deveria ser um alerta para aqueles que buscam aperfeiçoar a espécie humana. Mas o objetivo de aperfeiçoar a espécie - que é a própria raíz e fonte do impulso totalitário - é essencialmente religioso.

 George Orwell, o descrente ascético cujos romances nos deram um retrato indelével de como realmente é a vida num Estado totalitário, não tinha dúvidas sobre isso. Escreveu ele em ''The Prevention of Literature'', de 1946: ''Do ponto de vista totalitário, a história é algo a ser criado, mais que ser aprendido. Um estado totalitário é na verdade uma teocracia, e sua casta governante, de modo a manter sua posição, tem de ser considerada infalível.'' (Você perceberá que ele escreveu isso em um ano em que, tendo combatido o fascismo por mais de uma década, ele estava voltando suas armas cada vez mais contra os simpatizantes do comunismo.)

 Para ter uma disposição totalitária, não é preciso vestir um uniforme nem carregar um porrete ou um chicote. Só é preciso desejar sua própria sujeição e se dedicar com a sujeição dos outros. O que é um sistema totalitário senão aquele em que a glorificação abjeta do líder perfeito é acompanhada da renúncia a toda a privacidade e individualidade, especialmente em questões de sexualidade, e da denúncia e punição - ''para seu próprio bem'' - daqueles que transgridem? O elemento sexual provavelmente é decisivo, no sentido de que a mente mais embotada pode perceber o que Nathaniel Hawthorne capturou em A Letra Escarlate: a profunda relação entre repressão e perversão.

 No começo da história da humanidade, o princípio totalitarista era o que reinava. A religião estatal oferecia uma resposta completa e ''total'' a todas as perguntas, da posição de alguém na hierarquia social às regras concernentes à dieta e ao sexo. Escravo ou não, o ser humano era propriedade, e o clero garantia a implementação do absolutismo. A projeção mais criativa que Orwell fez para a ideia totalitária - a acusação de ''crime imaginado'' (crimideia) - era lugar-comum. Um pensamento impuro, quanto mais um herético, podia fazer com que você fosse esfolado vivo. Ser acusado de possessão demoníaca ou de contato com o Diabo era ser condenado por isso. Orwell se deu conta dessa infernização pela primeira vez ainda jovem, ao ser trancada em uma escola hermética gerida por cristãos sádicos na qual não era possível saber quando você tinha violado as regras. Independentemente do que você fizesse, e por mais que tomasse precauções, os pecados dos quais não tinha consciência sempre podiam ser lançados sobre você.

 Era possível deixar aquela escola medonha (traumatizado por toda a vida, como milhares de crianças ficaram), mas não é possível, na visão religiosa totalitária, escapar deste mundo de pecado original, culpa e dor. Uma infinidade de punições espera por você mesmo depois da morte. De acordo com os totalitaristas religiosos realmente radicais, como João Calvino, que tomou sua doutrina medonha de Agostinho, uma infinidade de punições pode estar esperando por você antes mesmo do nascimento. Há muito tempo foi escrito que as almas seriam escolhidas ou ''eleitas'' quando chegasse o momento de separar as ovelhas das cabras. Não é possível nenhum recurso a essa sentença primordial, e não há boas ações ou profissões de fé que possam salvar aqueles que não tiveram a sorte de serem escolhidos. A Genebra de Calvino era um Estado totalitário típico, e o próprio Calvino era um sádico, torturador e assassino, que queimou Servetus ( um dos grandes pensadores e questionadores da época) com o homem ainda vivo. A infelicidade a que foram induzidos os seguidores de Calvino, obrigados a desperdiçar suas vidas se preocupando em se teriam sido ''eleitos'' ou não, foi bem captada no Adam Bede de George Elliot e em uma antiga sátira plebeia inglesa contra as outras seitas, das Testemunhas de Jeová à Irmandade Plymouth, que ousam dizer que são os eleitos e que só eles sabem o número exato dos que serão poupados da fogueira:

              Nós somos os poucos puros e escolhidos, todos vocês estão condenados.
             Há bastante espaço para vocês no inferno - não queremos o céu lotado.

 Eu tive um tio inofensivo mas de espírito fraco cuja vida foi arruinada e tornada infeliz exatamente dessa forma. Calvino pode parecer um personagem distante para nós, mas aqueles que costumavam agarrar e usar o poder em seu nome ainda estão entre nós e usam os nomes mais suaves de presbiterianos e batistas. O apelo a proibir e censurar livros, silenciar dissidentes, condenar estrangeiros, invadir a esfera privada e invocar uma salvação exclusiva é a própria essência do totalitarismo. O fatalismo do islamismo, que acredita que tudo está antecipadamente definido por Alá, tem algumas semelhanças com essa completa negação da autonomia e da liberdade humanas, bem como sua crença arrogante e intolerável de que sua fé inclui tudo o que qualquer um precisa saber.

 Assim, quando a grande antologia antitotalitarista do século XX foi publicada em 1950, seus dois editores se deram conta de que ela só podia ter um nome. Eles a chamaram de O deus que falhou. Eu conheci ligeiramente e trabalhei com um desses dois homens - o socialista britânico Richard Crossman. Como ele descreveu em sua introdução do livro:

          Para o intelectual o conforto material é relativamente desimportante; ele se 
          preocupa principalmente com a liberdade espiritual. A força da Igreja Ca-
          tólica sempre foi o fato de que ela exige o completo sacrifício dessa liberda-
          de, e condena o orgulho espiritual como um pecado mortal. O noviço comu-
          nista, sujeitando sua alma à lei canônica do Kremlin, sente um pouco do alí-
          vio que o catolicismo também dá ao intelectual, extenuado e preocupado com
          a liberdade.

 O único livro que tinha alertado antecipadamente para tudo isso, trinta anos antes, foi uma obra pequena mas brilhante publicada em 1919 e intitulada Prática e teoria do bolchevismo. Muito antes de Arthur Koestler e Richard Crossman terem começado a pesquisar os destroços retrospectivamente, todo o desastre estava sendo previsto em termos que ainda despertam admiração por sua presciência. O analista cáustico dessa nova religião era Bertrand Russel, cujo ateísmo o tornou ainda mais previdente do que muitos ''socialistas cristãos'' ingênuos que alegaram identificar na Rússia o início de um novo paraíso na Terra. Ele também era mais previdente do que o establishment cristão anglicano de sua Inglaterra natal, cujo principal jornal, o Times de Londres, assumiu o ponto de vista de que a Revolução Russa podia ser explicada pelo Protocolo dos Sábios de Sião. Essa falsificação revoltante feita por agentes secretos ortodoxos russos foi publicada por Eyre and Spottiswood, impressora oficial da Igreja da Inglaterra.

 Dado seu próprio histórico de sucumbir a ditaduras na Terra e ao controle absoluto da próxima vida e ainda sim promulgá-los, como a religião enfrentou os totalitarismos ''seculares'' de nossa época? É preciso inicialmente considerar, por ordem, fascismo, nazismo e stalinismo.

 O fascismo - precursor do modelo do nacional-socialismo - foi um movimento que acreditava em uma sociedade orgânica e corporativa, presidida por um líder ou guia. (As ''fasces'' - símbolo dos lictores, ou guardas da roma antiga - eram feixes de varas amarrados a uma machadinha, sinal de unidade e autoridade.) Surgindo da miséria e da humilhação da 1ª Guerra Mundial, os movimentos fascistas defendiam os valores tradicionais contra o bolchevismo e pregavam o nacionalismo e a piedade. Provavelmente não é coincidência que a Igreja Católica em geral fosse simpática ao fascismo como ideia.

 Não apenas a Igreja via o comunismo como inimigo mortal, mas também via seu inimigo judeu mais antigo nas altas fileiras do partido de Lênin. Benito Mussolini mal tinha tomado o poder na Itália  e o Vaticano já estava fazendo com ele um tratado oficial, conhecido como Tratado de Latrão de 1929. Pelos termos do acordo, o catolicismo se  tornou a única religião reconhecida na Itália, com monopólio em questão de nascimento, casamento, morte e educação, e em troca conclamava seus seguidores a votar no partido de Mussolini. O papa Pio XI descreveu Il Duce (''o líder'') como ''um homem enviado pela Providência''. Eleições não seria uma característica da vida italiana por muito tempo, mas a igreja ainda sim levou à dissolução dos partidos leigos de centro e ajudou a financiar um pseudopartido chamado ''Ação Católica'', que foi copiado em muitos países. Por todo o sul da Europa, a Igreja foi uma aliada confiável na instalação de regimes fascistas na Espanha, em Portugal e na Croácia. Na Espanha, o general Franco foi autorizado a chamar a sua invasão do país e destruição da república eleita pelo título terrível de La Crujada, ou ''A Cruzada''. O Vaticano apoiou ou se recusou a criticar as tentativas operísticas de Mussolini de recriar um pastiche do Império Romano com suas invasões da Líbia, da Abissínia (hoje Etiópia) e da Albânia: territórios que eram habitados principalmente por não-cristãos ou pelo tipo errado de cristãos orientais. Mussolini chegou mesmo a dar como uma de suas justificativas para a utilização de gás venenoso e outros métodos horripilantes na Abissínia a insistência de seus habitantes na heresia do monofisismo, um dogma incorreto da Encarnação que tinha sido condenado pelo papa Leão e pelo Concílio de Calcedônia de 451.
 Na Europa central e oriental o quadro não era melhor. O golpe militar de extrema direita na Hungria, liderado pelo almirante Horthy, foi calorosamente endossado pela Igreja, assim como movimentos fascistas semelhantes na Áustria e na Eslováquia. (O regime-fantoche nazista da Eslováquia na verdade era comandado por um homem de votos sacerdotais chamado padre Tiso.) O cardeal da Áustria proclamou seu entusiasmo com a tomada de seu país por Hitler quando do Anschluss.

 Na França, a extrema-direta adotou o lema de ''Meilleur Hitler que Blum'' - em outras palavras, melhor ter um ditador racista alemão que um socialista francês judeu eleito. Organizações fascistas católicas como a Action Française, de Charles Murras, e a Croix de Feu fizeram violentas campanhas contra a democracia e não tentaram de modo algum esconder seu ressentimento pelo modo como a França estava decaindo desde o veredicto de Inocência para o capitão judeu Alfred Dreyfuss em 1899. Quando houve a conquista da França pela Alemanha, essas forças colaboraram ativamente com a prisão e o assassinato de judeus franceses, assim como a deportação para trabalhos forçados de um enorme número de outros franceses. O regime de Vichy se curvou ao clericalismo eliminando o lema de 1989 - ''Liberté, Egualité, Fraternité'' - da moeda nacional e substituindo pelo lema cristão ideal de ''Familie, Travail, Patrie''. Mesmo em um país como a Inglaterra,  onde as simpatias fascistas eram menores, eles ainda conseguiram uma plateia em círculos respeitáveis com a atuação de intelectuais católicos como T. S. Elliot e Evelyn Waugh.

 Na vizinha Irlanda, o movimento Blue Shirt do general O'Duffy (que enviou voluntários para lutar por Franco na Espanha) era pouco mais do que um ramo da Igreja Católica. Mesmo em abril de 1945, ao receber a notícia da morte de Hitler, o presidente Eamon de Valera colocou sua cartola, chamou a carruagem oficial e foi à embaixada alemã de Dublin para apresentar suas condolências. Atitudes como essas significaram que vários Estados dominados por católicos, da Irlanda à Espanha e à Portugal, eram inelegíveis para ingresso nas Nações Unidas quando elas foram criadas. A Igreja se esforçou para se desculpar por isso tudo, mas sua cumplicidade com o fascismo é uma marca indelével de sua história, e não foi um compromisso de curto prazo ou precipitado, mas uma aliança de trabalho que não foi rompida até depois de o próprio período fascista ter passado para a história.

 O caso da rendição da Igreja ao nacional-socialismo alemão é consideravelmente mais complicado, mas não muito mais elevado. Apesar de partilhar dois importantes princípios com o movimento de Hitler - o antissemitismo e o anticomunismo -, o Vaticano podia ver que o nazismo representava também um desafio a ele próprio. Para começar, era um fenômeno quase pagão que a longo prazo buscava substituir o cristianismo por ritos de sangue e sinistros mitos raciais pseudonórdicos, baseados na fantasia da superioridade ariana. Em segundo lugar, defendia uma política de extermínio para os doentes, os desajustados e os insanos, e rapidamente começou a aplicar essa política não a judeus, mas a alemães. Em benefício da Igreja deve ser dito que seus púlpitos alemães denunciaram essa hedionda seleção eugênica logo de início.

 Mas se os princípios étnicos fossem a regra, o Vaticano não teria de passar os 50 anos seguintes tentando se desculpar por sua desprezível passividade e inação. ''Passividade'' e ''inação'' na verdade podem ser uma escolha de palavras errada. Decidir não fazer nada é em si uma política e uma decisão, e é lamentavelmente mais fácil registrar e explicar o alinhamento da Igreja em termos de uma realpolitik que buscava não uma derrota do nazismo, mas um ajuste a ele.

 O primeiro acordo diplomático fechado pelo governo de Hitler foi consumado em 8 de Julho de 1933, poucos meses após a tomada do poder, e teve a forma de um tratado com o Vaticano. Em troca de controle inquestionável da educação de crianças católicas na Alemanha, o fim da propaganda nazista dos abusos infligidos em escolas e orfanatos católicos e a concessão de outros privilégios, a Santa Sé instruiu o Partido Centro Católico a se dissolver, e bruscamente determinou que os católicos se abstivessem de qualquer atividade política em qualquer tema que o regime resolvesse definir como fora dos limites. Na primeira reunião de gabinete depois dessa capitulação ter sido assinada, Hitler anunciou que as novas circunstâncias seriam ''especialmente significativas na luta contra o judaísmo internacional''. Ele não estava equivocado em relação a isso. De fato, ele podia ser desculpado por não acreditar em sua própria sorte. Os 22 milhões de católicos que vivam no Terceiro Reich, muitos dos quais tinham demonstrado grande coragem resistindo à ascensão do nazismo, tinam sido estripados e castrados como força política. Seu próprio Santo Padre tinha de fato dito a eles para entregar tudo ao pior César da história humana. A partir de então, os registros das paróquias foram colocados à disposição do Estado nazista de modo a estabelecer quem era e quem não era suficientemente ''racialmente puro'' para sobreviver à interminável perseguição sob as leis de Nuremberg.

 A consequência não menos chocante dessa rendição moral foi o paralelo colapso moral dos protestantes alemães, que buscavam conseguir um status especial para os católicos publicando seu próprio acordo com o Fuhrer. Porém, nenhuma das igrejas protestantes foi tão longe quanto a hierarquia católica ordenando uma celebração anual no aniversário de Hitler, em 20 de abril. Nessa data auspiciosa, por instrução do papa, o cardeal de Berlim regularmente transmitia ''calorosas congratulações ao Fuhrer em nome dos bispos e das dioceses da Alemanha'', sendo essas louvações acompanhadas de ''orações fervorosas que os católicos da Alemanha estão enviando aos céus a partir de seus altares''. A ordem era obedecida, e fielmente executada.

 Para ser justo, essa tradição abjeta só foi iniciada em 1939, ano em que houve uma mudança no papado. E, sendo justo mais uma vez, o papa Pio XI sempre tinha acalentado as mais profundas apreensões quanto ao sistema de Hitler e a sua evidente capacidade de mal radical. (Durante a primeira visita de Hitler a Roma, por exemplo, o Santo Padre deixou a cidade de forma bem clara para o retiro papal  de Castelgandolfo.) Contudo, essa papa frágil e doente foi constantemente manobrado, ao longo da década de 1930, por seu secretário de Estado, Eugenio Pacelli. Temos bons motivos para acreditar que pelo menos uma encíclica papal, expressando pelo menos uma mínima preocupação com o tratamento dispensado aos judeus da Europa, fora preparada por Sua Santidade mas eliminada por Pacelli, que tinha em mente outra estratégia. Nós hoje conhecemos Pacelli como o papa Pio XII, que ocupou o posto depois da morte de seu antigo superior em 1939. Quatro dias depois de sua eleição pelo colégio de cardeais, Sua Santidade produziu a seguinte carta para Berlim:

                     Ao ilustre Herr Adolf Hitler, Fuhrer e chanceler do Reich alemão! Aqui, no início
                     de Nosso Pontificado, queremos assegurar que Nós permanecemos dedicados ao
                    bem-estar espiritual do povo alemão confiado à sua liderança. (...) Durante os mui-
                    tos anos que passamos na Alemanha, fizemos tudo ao nosso alcance para estabelecer
                   relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. Agora que as responsabilidades de 
                   nossa função pastoral aumentaram as nossas oportunidades, de forma ainda mais
                   ardente rezamos para atingir nossa meta. Que a prosperidade do povo alemão e seu
                   progresso em todas as áreas se realizem, com a ajuda de Deus, para a fruição!
         
 Seis anos depois dessa mensagem maldosa e vaidosa, um dia o próspero e civilizado povo alemão podia olhar ao redor e dificilmente ver um tijolo sobre o outro, enquanto o Exército Vermelho sem deus marchava rumo a Berlim. Mas eu menciono essa conjuntura por outra razão. Espera-se que os crentes sustentem que o papa é o Vigário de Cristo na Terra e guardião das chaves de São Pedro. Eles, claro, são livres para acreditar nisso, e para acreditar que Deus decide quando encerrar o mandato de um papa ou (mais importante ainda) iniciar o mandato de outro. Isso implicaria acreditar na morte de um papa antinazista e na ascensão de um papa pró-nazista como desejo divino, poucos meses antes da invasão da Polônia por Hitler e o início da Segunda Guerra Mundial. Estudando aquela guerra, talvez seja possível acreditar que 25 por cento dos SS eram católicos praticantes e que nenhum católico foi sequer ameaçado de excomunhão por participação em crimes de guerra. (Joseph Goebbels foi excomungado, mas isso se deu antes e, afinal, ele tinha sido responsável por isso pelo crime de ter se casado com uma protestante.) Seres humanos e instituições são imperfeitos, certamente, mas não poderia haver prova mais clara e vívida de que as instituições sagradas são feitas pelo homem.

 O conluio continuou mesmo depois da guerra, com criminosos nazistas procurados levados para a América do Sul pela ''linha do rato''. Foi o próprio Vaticano, com sua capacidade de providenciar passaportes, documentos, dinheiro e contatos, que organizou a rede de fuga e também a necessária proteção e ajuda no outro extremo. Por mais que isso fosse ruim em si, também envolvia cooperação com outras ditaduras de extrema direita no hemisfério sul, muitas delas organizados segundo o modelo fascista. Torturadores e assassinos fugitivos como Klaus Barbie frequentemente se viam em uma segunda carreira como empregados desses regimes, que até começarem a desmoronar nas últimas décadas do século XX também desfrutaram de firme apoio do clero católico local. A ligação da Igreja com o fascismo e o nazismo de fato resistiu ao próprio Terceiro Reich.

 Muitos cristãos deram suas vidas para proteger seus próximos naquela meia noite do século, mas a chance de que eles o tenham feito por ordem de qualquer sacerdote é estatisticamente nula, Por isso referenciamos a memória daqueles poucos crentes, como Dietrich Boenhoffer e Martin Niemoller, que agiram de acordo apenas com o que determinavam suas consciências. O papado demorou até os anos 1980 para encontrar um candidato à santidade no contexto da ''solução final'', e mesmo então só conseguiu encontrar um padre muito dúbio que - após um longo histórico de antissemitismo político na Polônia - aparentemente tinha se comportado de forma nobre em Auschwitz. Um candidato anterior - um simples austríaco chamado  Franz Jagerstatter - infelizmente foi desclassificado. Ele de fato tinha se recusado a ingressar no exército de Hitler alegando obedecer à lei. A esquerda secular da Europa se saiu bem melhor em sua luta contra o nazismo.

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